É disso que sou feita
É disso que sou feita: saudade.
Como uma flor arrancada de um jardim e que chora no copo d’água sentindo falta da terra.
Assim, só saudade, inteira.
Como quem viu uma criança passando frio na praça e deu a ela seu casaco preferido e agora sente um apertozinho no coração, apesar de ter feito a coisa certa.
Uma saudade apertada daquelas que pairam no ar nos aeroportos e que mancham cartas com pesadas lágrimas.
É disso que sou feita: a única dor que o tempo não cura, só faz aumentar.
Dor que não cura nem com remédio caseiro.
É preciso presença pra sarar! E ainda assim, a ferida sempre acaba aberta de novo.
É frágil, delicada, como planta que só abre à noite.
Não pode sentir frio novamente, que já estica as pétalas e desabrocha num segundo.
Típico sentimento que adora atacar no fim do dia, quando só o relógio e a frigideira fazem barulho na cozinha.
Dorzinha que incomoda como pedra no sapato.
Uma pedra que aumenta a cada dia.
É disso que sou feita: metade saudade.
A outra metade? Bem, também sinto falta dela.
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