Para que minha vida me bastasse

Para que minha vida me bastasse, precisava dar seu lugar à literatura.
Em minha adolescência e minha primeira juventude, minha vocação fora sincera mas vazia; limitava-me a declarar: "Quero ser uma escritora".
Tratava-se agora de encontrar o que desejava escrever e ver em que medida o poderia fazer: tratava-se de escrever.
Isso me tomou tempo.
Eu jurara a mim mesma, outrora, terminar com vinte e dois anos a grande obra em que diria tudo; e tinha já trinta anos quando iniciei o meu primeiro romance publicado, A convidada.
Na minha família e entre minhas amigas de infância, murmurava-se que eu não daria nada.
Meu pai agastava-se: "Se tem alguma coisa dentro de si, que o ponha para fora".
Eu não me impacientava.
Tirar do nada e de si mesma um primeiro livro que, custe o que custar, fique em pé, era empresa, bem o sabia, exigente de numerosíssimas experiências, erros, trabalho e tempo, a não ser em virtude de um conjunto excepcional de circunstâncias favoráveis.
Escrever é um ofício, dizia-me, que se aprende escrevendo.
Assim mesmo dez anos é muito e durante esse período rabisquei muito papel.
Não creio que minha inexperiência baste para explicar um malogro tão perseverante.
Não era muito mais esperta quando iniciei A convidada.
Cumpre admitir que encontrei então "um assunto" quando antes nada tinha a dizer? Mas há sempre o mundo em derredor; que significa esse nada? Em que circunstâncias, por que, como as coisas se revelam como devendo ser ditas?
A literatura aparece quando alguma coisa na vida se desregra; para escrever - bem o mostrou Blanchot no paradoxo de Aytré - a primeira condição está em que a realidade deixe de ser natural; somente então a gente é capaz de vê-la e de mostrá-la.

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