Pecado original
Pecado original
Foi-me dito em minha infância sobre um tal pecado original.
Mas criança que eu era e, antes disso, ainda no regaço de minha mãe, inocente, puro, indefeso, como ser portador de um pecado? Nascer pecador, eu, que sem consciência de mim nada sabia e tudo ignorava a não ser os seios que me amamentaram?!
Os anos correram ligeiro, a criança adolesceu para o mundo.
E continuava sem entender o porquê do pecado.
E, se nos primórdios, o pai e mãe original pecaram por degustar um fruto proibido plantado no paraíso, diga-me, porque diabos a sua árvore estava plantada no paraíso, com o selo de interdição? Seria melhor Deus não a ter plantado… E que diabos, o diabo fazia no paraíso?
O menino cresceu.
Tornou-se um homem.
Um homem não feito.
Porque este menino-homem é um homem de incertezas.
O pecado original não o aflige, ignora-o.
Os outros pecados, igualmente, recebem o mesmo descrédito.
O amor.
Apenas o amor é originariamente necessário, magnânimo.
A sua falta é uma falta verdadeira.
O homem de incertezas não se apoia em conceitos absolutos.
Duvida das verdades doutrinárias e da mediocridade humana, começando por si próprio.
Duvida de suas posições contra a natureza do ser, duvida de suas investidas contra o que lhe é mais humano: o desejo, a dor, o prazer e o sofrimento.
A certeza habita apenas o epílogo da morte.
Entretanto, a morte não lhe é estranha.
Acolhe-a como o pobrezinho de Assis, com familiaridade.
A morte que não nos vem por causa do pecado.
Mas, porque nos intervalos entre a vida, nascemos e morremos.
O pecado original de Adão e Eva não me importa e, ouso mais, meu Deus, porque se Você morreu por meu pecado, pelo pecado da humanidade passada, presente e futura, é necessário comunicar-lhe que as pessoas cá embaixo continuam desamando-se uns aos outros.
Se se compreende que pela falta do amor entre seus semelhantes, mataram-Lhe, verifico que, na ausência de um amor mais socialmente integrado entre os seres humanos, (com menos apetrechos legalistas e mestres déspotas das fés), nossa racionalidade e emocionalidade se descaminham e se extinguem em um inferno geográfico.
Pecado original…
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